Este texto é para você.

Allana Gama estreia sua coluna refletindo sobre a coragem de escrever sem medo, celebrando a força das próprias vivências e inspirações cotidianas.

Este texto é para você.

Quando recebi o convite de Alê Garcia para escrever uma coluna para a Casablack, não só me senti honrada e feliz pela mulher que sou hoje, mas também pela adolescente que passava as noites de sábado na sua cidade, no interior da Bahia, lendo revistas e dando preferência aos editoriais e colunas. Ler aquelas reflexões de outras mulheres, de certa forma, expandiu meus horizontes, me inspirou e me conectou com a escrita.

Em algum momento, entre a adolescente e a mulher, houve um desencontro no gostar de colunas. Adultecer também me fez entender que, entre a minha realidade e a das colunistas que eu lia, havia um oceano de distância. Com isso, erroneamente, internalizei que escrever sobre reflexões e vivências pessoais não era para mim. Ninguém se interessaria pelo que eu teria a dizer, a menos que eu focasse em um tema específico e me tornasse referência naquilo. Um tema “sério”, técnico, se possível acadêmico, necessário e “importante”. E esse é o meu antigo e já conhecido obstáculo: sobre o que eu vou escrever, afinal?

Ter um tema específico é algo necessário na comunicação; facilita a vida de quem escreve ou produz conteúdo, assim como a do público. Porque o tema também se torna um ponto de referência. “Siga fulano, ele fala sobre cultura pop”. “Conheça não sei quem, escreve sobre economia”. “Acompanhe ciclano para se aprofundar em temas relacionados à saúde mental dos pets”. Ou seja, definir um tema é definir também o seu referencial – é por ele que você será lembrado. E talvez essa seja a pergunta do milhão: pelo que você gostaria de ser lembrada(o)?

E é nesse ponto que a Allana de hoje, no início dos seus 30 anos, se encontra com a Allana de 15. Por insegurança e perfeccionismo, ambas nunca conseguiram optar por um tema específico, e, na prática, nenhuma das opções parecia suficientemente atraente para se tornar um referencial de mim. O convite honroso que recebi também me levou a me confrontar com as perguntas: Sobre o que será essa coluna? Qual será a temática dos textos? Como irão me referenciar? Pelo que serei lembrada? Quem se importa com o que eu tenho a escrever? Não são questões inéditas. Em algum momento até aqui, alguma delas – ou todas – já me fizeram silenciar. Mas certas vontades dentro de nós são como a correnteza de um rio: as águas sempre acham seu caminho para escoar.

“A Allana de hoje, no início dos seus 30 anos, se encontra com a Allana de 15”. Foto: Arquivo Pessoal

A forma que encontrei de driblar essas questões foi idealizar o Mesa de Bar Podcast. As pautas abrangentes (e nada aleatórias) abordadas em cada temporada surgem, inicialmente, do meu interesse em refletir sobre determinado assunto (muitos e variados assuntos). A partir dessas pautas, convidamos pessoas que são referências no tema – seja profissional, acadêmica ou empiricamente.

E, não me leve a mal, eu amo entrevistar pessoas, conhecer suas histórias, gerar um ambiente seguro para a troca de ideias sem o tom bélico da internet em geral. Afinal, o slogan “Para abaixar a guarda e abrir a mente” segue sendo o nosso lema. Mas, ainda assim, com o Mesa, continuava achando que me faltava algo específico a dizer, a produzir e comunicar.

Nesse contexto, meu terapeuta me indicou uma entrevista da Conceição Evaristo, na qual ela explica sobre o termo escrevivência, de sua própria autoria. Alguns trechos me marcaram profundamente, como:

“Hoje há um movimento de se pensar que nós podemos inclusive ser musas da nossa própria história. (…) Diante das histórias que incomodam, a escrevivência quer justamente provocar essa fala, provocar essa escrita e provocar essa denúncia.”
— Conceição Evaristo, em entrevista ao Itaú Social.

Por vários motivos, acreditei por tempo demais que o que eu escrevesse não interessaria a ninguém. Mas, mesmo que isso fosse verdade, esse não deveria ser um motivo suficientemente forte para calar a minha vontade de fazê-lo. E, se o obstáculo for o tema pelo qual serei lembrada, a Allana de 15 pode ficar em paz, porque a de 30 vai se orgulhar em ser lembrada por descrever suas reflexões cotidianas, por escrever o que pensa com as vivências que tem.

Mas eu não conseguiria escrever só para mim. Eu escrevo para dialogar com quem está disposto a pensar no que estou pensando.

Escrevo para pessoas que, como eu, estão atrasadas para fazer o que sentem vontade. Escrevo para mulheres como minha mãe, que reúnem coragem para se reinventar após os 50 anos. Para pessoas como meus amigos, que se arrependeram de querer virar adultos na infância e hoje driblam a rotina tentando se encontrar. Para gente que assiste ao BBB e lê livros. Também escrevo para quem não lê há anos. Para quem acha que, se escrevesse o que pensa, seria cancelado.



Escrevo para as jovens cansadas que esperam um pouco mais de leveza da vida. E para que você saiba que nada é uma experiência única e individual.

Escrevo para que você se identifique, mas também discorde. Escrevo para abrir a mente de homens como meu pai. E, especialmente, para quem está disposto a sentar num boteco, tomar uma comigo e pensar sobre a vida ou sobre a última pauta do Twitter/X.

Se você se encaixa em alguma dessas descrições, essa coluna é para você.

E isso é o que temos para hoje.